SOU SANTA! ÔCHE!

Mais um conto divertido de João B. Ferr, publicado em Catre das Letras, que reblogo com imenso prazer.

Catre das Letras

sou-santa-ocheAcima da cabeça dançante da baiana Zulmira a lavadeira, delicadas roupas alvas, ainda úmidas pendiam no varal enquanto ela como Carmem Miranda cantarolava O Tico-tico no Fubá, já na estrofe final da canção: “O tico-tico, tico-tico… O tico-tico tá, tá outra vez aqui… O tico-tico tá comendo meu fubá… O tico-tico tem, tem que se alimentar… Que vá comer umas minhocas no pomar!” E logo Zulmira emendou outra antiga canção: “Da cor do azeviche, da jabuticaba… Boneca de piche… É tu que me acaba… Sou preto e meu gosto ninguém me contesta. Mas há muito branco com pinta na testa”.

No cortiço, Mira gesticulava, e suas mãozinhas dançantes hábeis bailavam para um lado e para outro enquanto sua cintura nada fina acompanhava as avolumadas ancas no rebolado da baiana do vatapá e do caruru. Seus olhos, duas bolinhas brilhantes vivas a acompanhavam no ritmo e buscavam as estrelas. Na verdade ela era…

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A SEXUALIDADE NA MELHOR IDADE

A SEXUALIDADE NA MELHOR IDADE

Nos dias atuais é comum a longevidade do ser humano, graças a fatores diversos (boa saúde e qualidade de vida, principalmente). Por esse motivo, cada ciclo de vida passou a ser classificado por “idades”: primeira idade, idade viril, meia-idade, terceira-idade e quarta-idade. E com o surgimento desses novos ciclos, surgiram também os estereótipos, principalmente quanto à sexualidade e ao envelhecimento.

A maioria de nós associa o envelhecimento à diminuição de nossos potenciais físicos e mentais – o que pode realmente acontecer – e deixa de ponderar que essa situação é compensada pelas experiências. Estamos predispostos a assexualizar os que atingiram a maturidade, porém, não é o que acontece de fato.

O homem (o ser humano) é um ser sexual. O sexo – transcrevo aqui as palavras de um querido “quase anônimo” amigo – “está animalesca e monstruosamente inserido na raiz de nossa vida”. E a sexualidade reúne em um todo o ato sexual, o amor, o desejo, a intimidade, o companheirismo, o humor, uma série de outros sentimentos, os relacionamentos e os pensamentos também. Se viver bem e envelhecer é resultado de boa saúde e de qualidade de vida, então a sexualidade é o que tempera tudo, pois realça “as pessoas, a comunicação e o amor”.*

– Dona Nilva – disse a geriatra – os resultados de seus exames estão excelentes. A senhora pode agendar aquela viagem com o Senhor Moacir. Está tudo liberado, inclusive a atividade sexual. Parabéns!

– Obrigada, doutora! – disse Nilva, sorridente.

– Dona Almerinda – disse a geriatra – esse “joelho estalando” é falta de lubrificação. O ato sexual libera no organismo substâncias que lubrificam as articulações. Portanto, trate de fazer sexo com o Senhor José.

– O que é isso, menina? Que falta de respeito! – disse Almerinda, sobressaltada – Eu tenho idade para ser a sua avó, viu?

– Moacir… Estou com muito desejo. Quer experimentar o sexo tântrico? – disse Nilva.

– Claro, meu bem! – disse Moacir – Desfrutar de sua companhia e atingir o prazer com você é tudo o que mais quero…

– Ô Zé? – disse Almerinda – A médica mandou a gente namorar… Você ainda lembra como é que se faz?

– Ih, velha… Sei não… Será que dá? – disse José.

– Moacir, eu trouxe Viagra… Você acha que precisa? – disse Nilva.

– Meu amor, te ver assim, cheia de desejo, sentir o seu cheiro, olhar o seu corpo, é o suficiente para mim! – disse Moacir.

– Zé, beba aqui essa catuaba e depois beba essa gemada com Caracu. – disse Almerinda – Mas beba tudo, heim?! E vá tomar um banho que depois eu vou…

– Apague a luz, mulher! – disse José.

– Ah, Nilva! – disse Moacir – Essa sua pele macia me deixa louco…

– Ah, Moacir! – disse Nilva – Você me dá tanto prazer…

– Ô velha, o que é isso? É a sua perna? Cadê os meus óculos? – disse José.

– Acenda a luz, Zé! – disse Almerinda.

– Oh, Moacir… Oh, Moacir… Oh, Moacir… Oooooh, Moaciiiiiiir!!!

– Ah, Nilva… Ah, Nilva… Ah, Nilva… Aaaaaaaah, Nilva!!!

– José? José? Você dormiu Zé? – disse Almerinda, balançando José.

– Quem é você? Onde é que eu estou? – disse José, zonzo ao despertar.

– Como assim, homem de Deus? Sou eu, sua esposa! – disse Almerinda.

– Ué? Eu sou casado? – disse José.

– Nilva – disse Moacir – você é uma amante maravilhosa…

– Ah, meu amor… – disse Nilva.

– Zé? Quer ver televisão? – disse Almerinda.

– Será que a novela já começou? Adoro ficar com você, minha velha… – disse José.

– Ah… Eu também, meu velho! – disse Almerinda, feliz.

O envelhecimento é um processo natural, todos nós envelhecemos. O corpo muda e os gostos também. Há perdas e ganhos. Mas a sexualidade sempre estará presente. Nas “idades” do amadurecimento, também somos capazes de expressá-la. Tudo dependerá da maneira como reinterpretamos o mundo e a nossa existência à medida que envelhecemos, pois a sexualidade é relativa e pessoal. Compreenda e aceite a sua sexualidade, para que suas experiências se transformem em algo positivo.

Portanto, não se preocupe e não tenha medo: envelhecer é uma grande conquista.


“The Phonograph”, copyrigth 1905, Nacional Phonograph, Co.

* Trecho da definição de sexualidade estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A POSIÇÃO DO FRANGO ASSADO

A POSIÇÃO DO FRANGO ASSADO

Benedita seguia feliz com sua rotina.

Ela fabricava cintos em casa – fazia os furos, colocava as fivelas e ganhava nove centavos por cinto. De vez em quando, necessitava ir até o fornecedor de couro no bairro do Cupim (o bairro tinha esse nome porque todas as casas eram feitas de madeira) em Nova Iguaçu, para buscar as tiras ou entregar os cintos já acabados. Todo dia, namorava o marido João. E esta era a sua rotina.

Até que um dia – ao sair para entregar mais uma remessa de cintos – enquanto atravessava o estacionamento do supermercado Extra da Via Light, ouviu o seguinte diálogo entre duas senhoras da terceira idade:

– Bom dia, Dona Neomir!

– Bom dia, Dona Esperança!

Dona Neomir era uma senhora muito idosa, que “já sofreu um derrame” (acidente vascular cerebral) e por isso andava com a ajuda de uma bengala. Ela também sofria de falacrose (tinha pouquíssimo cabelo), tudo porque na juventude “inventou moda” de “tomar sol” e passar no cabelo uma mistura de amônia, água oxigenada e sabonete para ficar mais loira. E Dona Esperança era uma senhora negra e forte que trabalhou durante muitos anos na lavagem de roupa.

– Como está Dona Neomir?

Nesse momento, Dona Neomir se apoiou de qualquer jeito na bengala e fez um movimento – com o braço bom – para cima e para baixo, como se estivesse cortando algo com um serrote, e respondeu:

– “Met*ndo muito” (fazendo muito sexo), Dona Esperança!

– Mas o que é isso, Dona Neomir! Toma vergonha, velha desse jeito…

– O que é que tem Dona Esperança? Eu tenho boca, tenho vagina e sou uma tremenda de uma filha da p***! Faço frango assado, meia nove, refinada, estilo do sapo, pato mandarim, entrelaçada, passo do tigre, união suspensa, carrinho de mão, bate estaca, amazona, balanço, macaco cantando, borboleta, bezerrinha… Faço todas as posições sexuais!

– Ai, meu Deus, velha maluca! Aposto que sonhou com tudo isso… Até mais, Dona Neomir!

– Até mais, Dona Esperança!

E cada senhora seguiu o seu rumo.

Benedita – que ouviu toda a conversa – se concentrou apenas em um conjunto de palavras: “frango assado”.

– Mas elas falaram sobre posições sexuais… Pensou.

– Então, como pode ter comida nessa conversa? Refletiu.

Quando voltou para casa, chamou por cima do muro a Dona Itália – vizinha esperta, descendente de italianos e que tinha um smartphone – e perguntou para ela “o que frango assado tinha a ver com sexo”. Rapidamente, Dona Itália pesquisou no celular e mostrou o resultado para a curiosa vizinha.

“– Minha nossa, é a posição que eu sempre faço com o meu marido!” Imaginou.

Prosseguiu com a indagação:  – E têm outras?!

Dona Itália, de posse do smartphone, mostrou novos nomes e novas posições sexuais para a amiga. Incomodada, Benedita agradeceu e foi direto para a cozinha.

– Maldito João! Faz isso comigo todo o santo dia e nem para mudar um pouquinho… Sussurrou sozinha.

– Mas, agora, tudo vai mudar. Ele vai ver… Vai ganhar uma lição! Tramou.

João chegou do trabalho e foi recebido com um belo jantar. Cardápio: frango assado. Jantou, agradeceu e foi namorar a esposa, do mesmo jeito que fazia diariamente. No dia seguinte, novo jantar. Cardápio? Frango assado. E depois, e depois, e depois… Frango assado. E jantou frango assado durante um mês.

Viu, mais uma vez, o frango assado sobre a mesa de jantar e teceu no seu pensamento: “– Lá vem essa mulher estragar o meu dia. Outra vez, o frango assado! Um mês inteiro comendo frango assado… Quem atura???”.

João não se contentou em pensar e falou em alto e bom som.

Benedita ouviu a reclamação e imediatamente retrucou:

– Não gosta de frango assado todo dia, João? Nem eu! E é só o que você me dá na cama: frango assado, frango assado, frango assado! Não suporto mais o tal do frango assado, eu quero coisa diferente! Até a velha maluca, Dona Neomir, “transa” (faz sexo) melhor do que a gente; ela disse que está “met*ndo muito”: faz meia meia, embolada, passo do elefantinho, baiana, perereca pulando, pato no tucupi, colher de pedreiro, pula corda, gato de botas, mico-leão, bate prego, abelha, cabrita (Benedita confundiu o nome das posições) e só a gente é que continua fazendo o frango assado. São dezoito anos de frango assado, João! Faça alguma coisa, homem de Deus!

O pobre do João, que era um homem tímido e não sabia nada dessas coisas, entendeu finalmente o recado e tratou logo de resolver a questão: foi até a banca de jornal do mercado Extra – trajando boné e óculos escuros, pois morria de vergonha e não queria ser reconhecido pela jornaleira – e comprou um livreto, um tal de “Kama Sutra Moderno” (escolheu este porque tinha uma foto muito sensual na capa). Levou o livreto para casa, deixou o jantar de lado e puxou a Benedita para dentro do quarto, ao mesmo tempo em que arrancava a roupa de ambos.

No dia seguinte, Benedita voltou para a sua rotina e saiu de casa para entregar nova remessa de cintos. E, no caminho, encontrou Dona Neomir:

– Bom dia, Dona Neomir!

– Bom dia, Dona Benedita!

– Como está Dona Neomir?

– “Met*ndo muito”, Dona Benedita!

– Aaaaaahhhhhh… Eu também…

 


“Still Life of a Roast Chicken”, pintura de Joseph (The Elder) Heintz

O CORDEL DA FEITICERESCA BATALHA ENTRE O SÍNICO E A CÍNICA

O CORDEL DA FEITICERESCA BATALHA ENTRE O SÍNICO E A CÍNICA

Aqui sou eu quem vos fala
Sobre minha triste sina
Caí numa emboscada
Assim que cheguei da China
Seduzido pelo feitiço
Da desavergonhada Alcina

Mulher filha do diabo
Tratou de lançar-me um encanto
Tirou todo o meu legado
Restou sequer meu recanto
Teve a ajuda de sua tia
Mas ela sabia o que fazia
Entrou na pastelaria
Bamboleante no andar
Sabia que de olhar para ela
Eu nunca iria me cansar
Deu em mim uma chave de vulva
E me levou direto ao altar
De posse da certidão
Deu início ao seu plano
Junto com a tia e o Ricardo
Primo dela? Puro engano
Meu destino estava traçado
Seria cumprido no cotidiano
Sua tia feiticeira
Indicou qual erva usar:
– Faça tudo com atento
Não há como falhar
É só uma questão de tempo
Para esta vida o sínico deixar!
Todo o dia me recebia
Com um chá de noz-moscada
Ingerido na medida
Produzia alma penada
Só que a minha é protegida
Eu no máximo alucinava
Pediu ao primo Ricardo
Que levasse à pastelaria
Uma cesta de beladona
Cuja baga eu conhecia
Disse ser jabuticaba
Estava certa que eu comeria
Inocente eu disse à cínica
Que houve uma confusão
Pedi que tivesse cuidado
E um pouco mais de atenção
Antes eu confiasse
Em minha forte intuição
Tentou mancenilheira
Veneno de rato e cavalinha
E como nada adiantava
Falou novamente com a tia:
– Isso é caso que se resolve
Com advogado, Alcininha!
Concebeu outro plano
Dentro do seu coração
Contratou o advogado
E pediu anulação
Tentou provar por A mais B
Que foi minha a traição
Testemunhou em juízo
Aquele seu primo Ricardo
Que disse ser meu amante
E me chamou de veado
Mas não o veado de corno
E sim o de efeminado
Mas esse não foi o motivo
Que anulou a união
Alcininha não tinha idade
Para realizar a associação
Com a pudicícia violada
Pediu indenização
O capeta trouxe ao mundo
Esta bela cria do mal
Capaz de usar contra mim
Meu desejo sexual
A cínica venceu o sínico
Nesta batalha final
Agora, meus senhores
Eu puxo um burrinho sem rabo
E sempre paro na bodega
Para falar do meu desagrado
Mas antes eu sempre peço:
– Copo cheio com nada aguado!

Capa de “O Verdadeiro ABC dos Cornos”, de Cornélio da Galha (Academia Brasileira da Literatura de Cordel)
SAINDO DO ARMÁRIO DE NÁRNIA

SAINDO DO ARMÁRIO DE NÁRNIA

É costume chamar de “doutor” o profissional que exerce a medicina, o homem douto (muito instruído, como um advogado) e também a pessoa pretensiosa em relação ao que sabe (o sabichão). Mas as palavras “doutor” e “médico” têm origens bem diferentes: a palavra doctor, em latim – que significa mestre – era usada para nomear o responsável pelo treino dos gladiadores. Já medicus era a palavra latina que definia a profissão de médico.

Paulo e Maria do Carmo são um casal de meia-idade com um casamento estável, rotina bem definida, filhos criados e que agora vivem sós. Paulo é rábula (advogado de formação prática) já aposentado, que recebeu sua habilitação na década de quarenta. E Maria do Carmo é dona de casa.

O “Doutor” (advogado) Paulo passava a maior parte do dia na Praça da Liberdade, no centro de Nova Iguaçu. Lá, ele discutia as notícias do jornal, comentava sobre o que acontecia ao redor e jogava damas ou baralho. Tudo isso nos banquinhos de cimento da tal praça. Já a Maria do Carmo dividia o seu tempo livre entre os afazeres domésticos e suas idas regulares ao salão de beleza de sua amiga Norma, que ficava em Santa Eugênia. E a programação em comum era a reunião religiosa de domingo.

Sexo? Só com dia e hora marcados, como acontece em alguns casamentos de longa duração. Geralmente, uma vez por mês, quando se sentiam afortunados.

Nos dias sem sexo – ou seja, trezentas e cinquenta e três vezes ao ano, sem contar o ano bissexto – era um festival de calcinhas, sutiãs e cuecas de cor bege, para tirar o tesão de qualquer um. Nos outros doze dias do ano – os dias de sexo – eles tinham o cuidado de substituir a roupa íntima bege por outra preta ou branca, para a relação sexual não ficar tão banal.

Ambos estavam inconformados com a rotina sexual e queriam mudar radicalmente a situação.

E Norma – a cabeleireira – mulher sabichã e “doutora” de ladeira (excelente conselheira) só com um olhar percebeu a tristeza da amiga e disse: “– Maria do Carmo, eu sei que você é uma mulher criada à moda antiga (de forma tradicional) e por isso aprendeu que mulher de bem (casta) não fala sobre sexo. Também sei que é isso que a aflige e você não precisa confirmar. Pois então, vou dar a você três conselhos e espero que, com isso, tudo fique melhor”.

Norma era uma daquelas pessoas que achava muito fácil dizer o que os outros deveriam fazer e por isso, começou: “– Conselho número um: vá ao sex shop (loja de artigos eróticos). Compre roupa de baixo nova, camisinhas de todos os tipos e tudo aquilo que a sua imaginação desejar”. Continuou: “– Conselho número dois: faça algum tipo de performance memorável, sabe? Como a Cleópatra, que se apresentou enrolada em um tapete a Júlio César”. Terminou: “– Conselho número três: faça sexo oral, anal, fique por cima e garanta que ele veja tudo. Os homens adoram quando é a gente que faz todo o serviço”.

Maria do Carmo saiu abalada do salão, contudo tratou de memorizar o que a amiga disse. Criou coragem e falou com Paulo sobre o que sentia e o queria fazer na cama. E depois de uma longa discussão – principalmente para acordar a prática da sodomia (o sexo anal) – o casal agendou o encontro sexual para o dia treze de setembro, o Dia Nacional da Cachaça.

Maria do Carmo pegou o “fundo de emergência” – aquele dinheiro que as mulheres guardam no fundo de alguma gaveta para resolver problemas urgentes – e comprou com ele lingerie e negligée (roupa íntima feminina e um robe de chambre transparente) na cor vermelha; camisinhas de tipos e tamanhos diferentes, porque ela não sabia que o tamanho do preservativo estava associado à largura do pênis; Viagra “por via das dúvidas” e um pequeno vibrador. E Paulo preparou uma deliciosa caipirinha – seguindo à risca o que dizia o artigo 68, §5º do Decreto 6.871 de 2009 – com o objetivo de deixar ambos “à vontade” (sem constrangimentos) com tanta novidade.

Completamente desinibia graças à influência do álcool, Maria do Carmo colocou sobre a cama as camisinhas, o Viagra, o vibrador e o marido; pegou algumas gravatas de Paulo – as da reunião religiosa – no imenso guarda-roupa estilo Chipandelle (com espelho na porta, como o de Nárnia) e amarrou o marido nu e já excitado na cama (queria garantir que Paulo veria tudo). Então, ela pediu que Paulo fechasse os olhos por um momento. Vestiu a lingerie e o negligée e entrou no móvel para iniciar a tal “performance” (ela pensou que sair do armário surtiria o mesmo efeito que o tapete de Cleópatra). Em seguida, pediu ao marido que abrisse os olhos, saiu do guarda-roupa e iniciou uma dança lasciva.

Escolheu sair pela porta que tinha um espelho, para que Paulo pudesse ver na parte de trás do seu corpo – coberto com o transparente robe de chambre vermelho – a minúscula calcinha. Fez sexo oral no marido, de forma breve – quase como um beijo – deixando Paulo mais ansioso. Subiu na cama com muita sensualidade, pronta para assumir a tal posição “por cima”, combinada com a “anal”. Porém, quando começou a tirar o negligée, acabou se enroscando no tecido, tropeçou e caiu desajeitada sobre Paulo e sobre o “Paulinho” (o pênis ereto), que acabou fraturado.

Mas, graças à vizinhança sempre atenta, tudo terminou bem.

Paulo e “Paulinho” foram imediatamente socorridos pelos vizinhos, levados ao Hospital da Posse – que naquela época vivia o seu momento de glória – e submetidos a uma cirurgia que, de acordo com o “Doutor” (o médico cirurgião), não deixaria sequela. Paulo e Maria do Carmo aguardaram pacientemente a recuperação de “Paulinho”, acatando como se fosse lei a determinação médica de abstinência de oito semanas. E com maestria (como “doutores” que são no caminho do sexo já trilhado) Paulo e Maria do Carmo decidiram – sem dia e hora marcados, sem planejamento, sem álcool e sem guarda-roupa Chipandelle – se entregar aos prazeres que conheciam bem.


“Marriage a La Mode: The Bagnio”, pintura de William Hogarth

 

FATO OU FICÇÃO: QUEBRANTO É COISA DO DIABO

FATO OU FICÇÃO: QUEBRANTO É COISA DO DIABO

Não, quebranto não é coisa do diabo. Já vou dizendo que é ficção.

A ideia de sobrenatural é tão antiga quanto o homem, pois o pensamento mágico – associar deuses às forças que não são compreendidas – antecedeu o pensamento religioso. O filósofo grego Tales afirmou “que todas as coisas estão cheias de deuses” (ou almas) ao observar uma rocha magnética, conceito que depois foi chamado por Edward Burnett Tylor de animismo.

Com base nesta ideia, gregos e romanos tornaram-se especialistas no politeísmo. Havia deuses e sacerdotes para toda e qualquer situação: protetores de portas, adoradores de lobos, oráculos do sol, padroeiros do masoquismo, dos andróginos e culto aos imperadores mortos para “puxa-saco” (ou bajulador), por exemplo. E os deuses praticavam o bem e o mal porque esta era a sua natureza.

A fim de garantir a intervenção divina, em algumas situações, fazia-se uso dos facticius (feitiços) ou objetos mágicos – como excrementos, vísceras e aves – que os franceses adotaram com prazer, dando origem à palavra fétiche e, por conseguinte, ao fetichismo, prática que observo com positiva curiosidade.

Emília – que acreditava com grande convicção no poder da feitiçaria – dizia ser vítima constante de um “quebranto” (influência maléfica de feitiço) que a impossibilitava de contrair matrimônio. Acreditava na possibilidade de o seu nome ter sido colocado na campanha da “Corrente dos Degenerados” de alguma igreja que se intitulava neopentecostal. Sabe-se que das pessoas emanam energias positivas e negativas, mas a questão é que Emília desconhecia a origem do quebranto e por isso se cercou de amuletos.

Primeiro, comprou uma planta e um cachorro, conforme orientação de sua mãe: “– A planta e o cachorro impedirão que o mau-olhado se transforme em quebranto e chegue até você, Emília!”. Mas não adiantou. Depois, Emília procurou por uma rezadeira, que fez o sinal da cruz, persignou a vítima do quebranto com um ramo de oliveira e rezou, em nome da trindade santa, “tirando com três, o que dois puseram”. Mas também não adiantou. Procurou por um centro de catimbó, onde solicitou um banho de descarrego só com arruda, para destruir as larvas atrais e os pensamentos negativos, mas não surtiu efeito. E Emília continuou solteira por um longo período.

Parcialmente resignada – mas ainda determinada – Emília encheu a casa de amuletos que, para a surpresa das senhoras do grupo de culinária, eram pênis. Não de verdade, claro, mas centenas de vibradores de todos os tipos e tamanhos, alguns com brilho e outros com luzes, posicionados por todos os lugares.

A escolha dos amuletos não era vista com bons olhos pelas senhoras da culinária, porém Emília não hesitava em argumentar e explicava que o objeto de seu desejo sempre foi um tipo de amuleto. “– Qual o problema? O falo (ou pênis) sempre foi símbolo de boa sorte e de proteção contra o mau-olhado. E para isso, faço o mesmo que os gregos: todo dia, eu toco gentilmente no topo de cada um (na cabecinha) para que, aqui, em minha casa, viva a felicidade!”. Só que as senhoras do grupo de culinária não se sentiam à vontade quando a aula era na casa da colega Emília e por isso decidiram encontrar um amor para ela, tendo fé que, assim, ela daria fim aos estranhos adornos.

Elas lembraram, imediatamente, do professor de idiomas de um curso daqui, de Nova Iguaçu – o Senhor Robson – que também “havia passado da hora de casar” e concluíram que seria “um ótimo partido” a para Emília. Era tão excêntrico quanto ela. Porém, tinham dúvidas (para as senhoras do grupo, sua imagem não era “das melhores”): o professor de idiomas parecia com a figura monstruosa de uma gárgula.

Arquitetaram um jantar em um restaurante que ficava dentro da área de eventos do hotel Mont Blanc, também em Nova Iguaçu. Raciocinaram: “– Vai que eles se entendem? Aproveitam e ficam por lá…”.

Emília chegou antes e sem usar a roupa que havia combinado com o professor para o primeiro encontro. Se não gostasse do Senhor Robson, não seria notada e sairia “de fininho” (sorrateiramente). Só que – para a surpresa de todos – seus olhos brilharam quando viu aquele homem horrendo que, sim, parecia mesmo com uma gárgula. “– Pelos deuses! Mas, que perfeito! Um amuleto europeu, em carne e osso!”, pensou. Correu em direção ao Senhor Robson e exclamou: “– Homem da minha vida, onde esteve durante todo este tempo?” E Robson respondeu: “– Com as mulheres erradas, querida!”. Sequer jantaram, foram direto para um dos quartos do hotel e ficaram por lá, muitas e muitas vezes, durante muito e muito tempo.

Agora, Emília e Robson formam um casal.

O grupo de culinária das senhoras continua se reunindo na casa de Emília, que – para desconforto geral – manteve os vibradores espalhados por lá. O Senhor Robson não se incomoda com os exemplares de “coisos” (órgãos sexuais masculinos) porque também é supersticioso e um grande apreciador de fetichismos.

E – por respeitarem a individualidade do parceiro – na casa de Robson e Emília vive, sim, a felicidade, ratificando que quebranto não é coisa do diabo.


“A Poção do Amor”, pintura de Evelyn de Morgan

ROMANCE EM TEMPOS DE MÁQUINA DE LAVAR

ROMANCE EM TEMPOS DE MÁQUINA DE LAVAR

Toda vez que eu me aproximava, a máquina de lavar corria em minha direção. Até que, finalmente, a monstruosidade entrou em curto, dando um fim à frenética perseguição e ao tórrido caso de amor entre ela e seus proprietários.

Dona Rebeca era “mulher de Deus”, muito bem casada com o Senhor Odherban Luiz, contador de um grande escritório de contabilidade. E, devido à honestidade de ambos, eram muito pobres. Por isso, tudo o que havia em seu lar era fruto de doações de parentes e amigos. E uma dessas doações foi uma enorme e antiga máquina de lavar azul, toda de metal, daquelas que você precisa puxar o botão para fora, girar e empurrar novamente para dentro, a fim de que a mesma inicie o seu barulhento ciclo de lavagem. E – como todos que já conviveram com uma máquina dessas sabem – ao mínimo sinal de roupa mal posicionada, a bicha-de-rabear (chamei assim porque se agita muito, igual à bombinha) sai correndo atrás de você, jogando água para todos os lados, até que o fio da tomada se solte da parede. Ela também sacoleja demais entre cada mudança de ciclo.

O Senhor Odherban Luiz era responsável por apresentar os cálculos judiciais de seus clientes envolvidos em ações trabalhistas, um trabalho de muita responsabilidade que o deixava visivelmente estressado. O medo de errar era tanto que, ao final do dia, não conseguia cumprir com suas “obrigações de marido” (ou seja, fazer sexo com a Dona Rebeca). E tal situação deixava ambos infelizes.

Dona Rebeca não era mulher de reclamar. E, embora muito pobre para comprar aparatos sexuais (por exemplo, vibradores, algemas e medicamentos para impotência masculina), sempre procurava contornar a situação com carinho e gentileza, pois gentileza gera gentileza. Graças a isso, o Senhor Odherban Luiz não descontava suas frustrações em sua família. Já com a garrafa de Johnnie Walker Red Label a história era outra: Odherban caía dentro e Dona Rebeca tomava a bebida com o gelo que ele dava nela.

Mas, um dia, durante o processo na lavanderia, Dona Rebeca se distraiu com seus devaneios relacionados à sua vida sexual e colocou roupa demais somente de um lado da caçamba da máquina. Iniciou o ciclo de lavagem e recostou-se sobre a tampa do monstro. Quando a máquina atingiu o ciclo de centrifugação, começou a andar e sacolejar. E – como em um momento de epifania – Dona Rebeca correu até a sala, trouxe o Senhor Odherban Luiz (já bêbado) pelo braço e o atirou sobre a máquina de lavar agitada, que não parava de andar, sacudir e lançar água. Em seguida, Dona Rebeca lançou-se nos braços de seu amado e consumiu ali mesmo – sobre a máquina – a paixão pulsante, violenta e concentrada. Nesse momento, eles entenderam que não precisavam de nenhum aparato sexual: necessitavam apenas do Johnnie Walker Red Label (para relaxar) e da máquina de lavar.

É claro que depois disso o Senhor Odherban Luiz perdeu completamente o foco no trabalho, pois passava o dia inteiro na expectativa de chegar em casa e colocar a roupa para lavar. E lavar roupa passou a ser o código secreto do casal para fazer sexo (assim evitavam que os “irmãos” da igreja, o sacerdote ou os filhos soubessem o que aconteceria quando mencionassem a lavagem de roupas).

Tudo corria bem até que, durante um desses momentos apaixonados de lavanderia, o motor da máquina aqueceu demais e derreteu um pouco da tomada, impedindo que a fiação elétrica se desconectasse e desligasse o monstro azul (como acontece com o Viagra). Por incrível que pareça, o disjuntor não desarmou e a máquina começou – no clico de centrifugação – a perseguir e molhar todos os membros da família.

Quando ouvi os gritos da Dona Rebeca – minha vizinha de porta naquela época – corri para ajudar. Mas ninguém conseguia chegar perto da tomada. Quem tentava era atacado pelo equipamento de lavagem furioso e revoltado (afinal foi utilizado até aquele momento de forma irresponsável, sobrecarregada e luxuriosa).

Depois do curto circuito, restou ao casal apenas a garrafa de Johnnie Walker Red Label, mas não era mais a mesma coisa. Estavam sempre tristes nas reuniões da igreja e Odherban já não executava o seu trabalho com o mesmo vigor, estresse e atenção do início.

Como nada escapa aos olhos do sacerdote e dos membros da igreja, uma arrecadação foi organizada para reformar a grande caixa azul, que foi devolvida ao casal em excelentes condições pela comunidade religiosa, no dia do seu aniversário de casamento (veja só como é importante fazer parte de uma comunidade que procura acompanhar com interesse o que se passa na vida os outros).

E assim – como aconteceu com a máquina de lavar renovada – renovaram-se mais uma vez os votos de amor do casal, que permaneceu feliz até o próximo defeito no ciclo de centrifugação.


“A Lavadeira”, pintura de Jean Baptiste Simeon Chardin